Vamos falar de mídia e inovação.

A gente é cercado por algoritmos, por aplicativos, por comodidade e, cada vez mais, buscando a perfeição através dos filtros.

Mas vou trazer uma informação que eu, particularmente, já mudei de opinião sobre ela umas 10x e custei a acreditar. Parece até cena de ficção científica, mas já é realidade. E uma realidade que ganhou muita força em 2025. Ou seja, já nem dá mais pra tratar como algo tão distante assim.

E talvez poucas discussões de mídia e inovação mostrem tão claramente essa mistura entre tecnologia, ciência e comportamento quanto o avanço da inteligência artificial na fertilização in vitro.

Como a inteligência artificial está sendo usada na fertilização in vitro

Até pouco tempo atrás, a fertilização in vitro, a famosa FIV, já era vista como um marco da medicina. Mas agora essa ciência deu um passo além: com o uso de algoritmos de IA, pesquisadores estão desenvolvendo formas de analisar embriões a partir de imagens, vídeos e informações clínicas, sem que essa avaliação dependa apenas da observação humana.

Sim! Já existem sistemas que tentam estimar quais embriões apresentam características associadas a melhores resultados ou menor probabilidade de alterações cromossômicas.

É justamente aí que a inteligência artificial na fertilização in vitro começa a mudar também a forma como falamos sobre a seleção genética de embriões.

Mas é importante fazer uma distinção aqui: essas ferramentas não dão uma resposta absoluta sobre qual embrião vai ou não resultar em uma gestação. São modelos probabilísticos, desenvolvidos a partir de dados clínicos, e ainda precisam ser interpretados dentro de todo o contexto médico.

BELA e STORK-A: algoritmos que analisam embriões

Um exemplo é o algoritmo BELA, desenvolvido por pesquisadores ligados ao Weill Cornell Medicine. O modelo analisa imagens em time-lapse do desenvolvimento do embrião junto com informações como a idade materna para estimar a probabilidade de alterações cromossômicas.

Em um estudo publicado na Nature Communications, o BELA alcançou uma AUC de 0,76 na diferenciação entre embriões euploides e aneuploides. Traduzindo: é um resultado relevante para pesquisa, mas não significa simplesmente dizer que o sistema “acerta 80% dos embriões”. Os próprios autores reforçam que a ferramenta não substitui o teste genético pré-implantacional.

E existe também o STORK-A, outro modelo de inteligência artificial desenvolvido para avaliar a ploidia dos embriões.

Ele usa imagens captadas por microscopia time-lapse, idade materna, características morfológicas e informações sobre o ritmo de desenvolvimento do embrião. O estudo de desenvolvimento do STORK-A analisou mais de 10 mil embriões e também utilizou bases externas para testar se o modelo funcionava em dados diferentes daqueles usados no treinamento.

Ou seja: não estamos falando simplesmente de uma máquina olhando uma foto e dizendo “esse bebê vai dar certo”. A tecnologia cruza várias informações para produzir uma estimativa de risco ou probabilidade.

Seleção genética de embriões sem tocar no embrião

Outro caminho que vem sendo pesquisado é o chamado teste genético pré-implantacional não invasivo, o niPGT.

A ideia é analisar fragmentos de DNA encontrados no líquido de cultura onde o embrião se desenvolve, evitando retirar células diretamente do embrião para fazer determinados tipos de análise.

É uma área que chama muita atenção justamente porque promete reduzir intervenções sobre o embrião. Mas, novamente, estamos falando de uma tecnologia que ainda exige validação, padronização e interpretação médica cuidadosa.

E aí entram também sistemas computacionais que ajudam a organizar uma quantidade enorme de informações genéticas para auxiliar na análise dos embriões.

É aqui que a discussão sobre seleção genética de embriões deixa de ser apenas um assunto médico e passa também para o campo da ética, da tecnologia e, claro, da mídia e inovação.

Escolha poligênica e o mercado dos chamados “bebês perfeitos”

Mas algumas empresas foram além da discussão sobre alterações cromossômicas e doenças hereditárias.

A Nucleus Genomics, por exemplo, passou a divulgar serviços de análise genética de embriões com uma comunicação bastante provocativa.

Em 2025, a startup ganhou os holofotes com uma campanha em Nova York usando frases relacionadas a altura, saúde e à ideia de “ter o seu melhor bebê”. A própria empresa divulgou a campanha “Have Your Best Baby” e direcionou o público para o endereço pickyourbaby.com.

A publicidade causou repercussão justamente porque não falava apenas em evitar doenças graves.

Falava de altura, capacidade cognitiva, aparência e outros traços.

Em entrevistas, a empresa afirmou oferecer análises de milhares de condições e características genéticas, permitindo que os pais comparem informações entre diferentes embriões.

Um pacote divulgado pela empresa chegou a ser oferecido por cerca de 30 mil dólares, incluindo análise genética dos pais e de até 20 embriões. Atualmente, a própria empresa divulga outras modalidades e preços, então esse valor precisa ser entendido dentro do momento específico em que o serviço foi anunciado.

E a campanha chamou atenção também pelos resultados comerciais. O fundador da empresa afirmou que as vendas aumentaram cerca de 1.700% depois da campanha. É importante destacar que esse número foi divulgado pela própria liderança da Nucleus e repercutido posteriormente pela imprensa.

Mas será que estamos vivendo o início de uma nova era da eugenia?

Scores de risco poligênico na seleção genética de embriões

Não é só saber se o bebê vai ter olhos azuis.

É avaliar os chamados Scores de Risco Poligênico.

Esses scores combinam milhares de variantes genéticas para estimar a predisposição estatística de uma pessoa a determinadas condições complexas.

Diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer são exemplos de condições estudadas com esse tipo de abordagem.

Só que existe uma diferença gigantesca entre predisposição e destino.

Ter um risco genético maior não significa necessariamente desenvolver uma doença. Da mesma forma, ter um risco menor não significa estar protegido.

E isso fica ainda mais complicado quando saímos da saúde e começamos a falar de características como inteligência, comportamento ou personalidade.

Saúde, altura e capacidade cognitiva entram na seleção

A proposta de algumas dessas empresas inclui informações relacionadas a altura e até estimativas ligadas à capacidade cognitiva.

Mas aqui entra um ponto fundamental.

Organizações médicas especializadas ainda demonstram bastante cautela em relação à seleção genética de embriões baseada em scores poligênicos.

O American College of Medical Genetics and Genomics, por exemplo, publicou uma orientação específica sobre o tema e destaca que ainda existem limitações importantes para o uso clínico desses scores na seleção de embriões.

Isso porque características complexas não dependem apenas da genética.

Um embrião pode ter determinadas variantes associadas a maior desempenho cognitivo em uma população estudada, mas isso não significa que aquela criança necessariamente desenvolverá essa característica.

Educação, nutrição, ambiente familiar, condições socioeconômicas e inúmeros outros fatores fazem parte dessa história.

O DNA influencia muita coisa.

Mas DNA não é destino.

Até onde a inteligência artificial deve interferir na escolha de um futuro filho?

Mas tudo isso não é algo positivo?

Porque, se por um lado a promessa é nobre — ajudar casais a terem filhos mais saudáveis —, a gente precisa pensar que há sempre o outro lado:

como fazer com que essa tecnologia não vire um mercado de “bebês perfeitos”?

Quem define o que é o melhor bebê?

Prever uma doença genética grave é uma coisa.

Agora, usar probabilidades para comparar inteligência, comportamento ou características físicas é outra discussão completamente diferente.

E existe ainda outro ponto: essas previsões não possuem o mesmo grau de certeza.

Quanto mais complexa é a característica, maior tende a ser a influência de fatores ambientais e de milhares de variantes genéticas diferentes.

Ou seja: a tecnologia consegue calcular probabilidades.

Não consegue entregar garantias.

E, se começarmos a escolher demais, será que não estamos perdendo o mais humano da vida?

Mídia e inovação: a inteligência artificial na reprodução assistida exige limites éticos

Como tudo que a gente discute por aqui sobre mídia e inovação, a inovação não é vilã.

O problema é sempre o uso que fazemos dela.

A inteligência artificial na fertilização in vitro pode ajudar médicos a analisar informações, apoiar decisões clínicas e ampliar nosso conhecimento sobre o desenvolvimento embrionário.

A genética também pode ser fundamental para identificar determinadas doenças hereditárias e ajudar famílias durante tratamentos de reprodução assistida.

Mas isso precisa vir acompanhado de responsabilidade, transparência, acompanhamento profissional e limites éticos muito claros.

Principalmente porque estamos falando de decisões tomadas por adultos sobre características de uma pessoa que ainda nem nasceu.

E é justamente aqui que a discussão sobre seleção genética de embriões fica muito maior do que simplesmente perguntar o que um algoritmo consegue prever.

Talvez a pergunta não seja “o que a tecnologia pode fazer?”, mas sim:

“o que ela deve fazer?”

Pra fechar, deixo uma provocação:

se você pudesse escolher hoje os traços do seu futuro filho — você faria isso?

A seleção genética de embriões é permitida no Brasil?

E tem mais um detalhe importante.

No Brasil, as regras éticas do Conselho Federal de Medicina para reprodução assistida estabelecem limites para a seleção de embriões.

A seleção de sexo ou de outras características biológicas não pode ser realizada simplesmente por preferência dos pais. A utilização de técnicas genéticas é admitida dentro de contextos médicos específicos, principalmente relacionados à prevenção ou diagnóstico de doenças.

Então aquele modelo comercial de escolher características como altura, aparência ou outras preferências pessoais não faz parte das práticas permitidas dentro das regras brasileiras de reprodução assistida.

Mas aí aparece uma nova questão: num mundo em que uma pessoa pode viajar para outro país e contratar tecnologias que não estão disponíveis aqui, até onde uma regra nacional consegue acompanhar esse mercado?

E talvez seja justamente aí que essa discussão fique ainda mais complicada.

Porque não estamos mais discutindo apenas genética.

Estamos discutindo mídia e inovação, tecnologia, dinheiro, acesso, ética e o tipo de sociedade que queremos criar.

FAQ

1. Como a inteligência artificial está sendo usada na fertilização in vitro?
A inteligência artificial na fertilização in vitro é usada para analisar imagens, vídeos e dados clínicos dos embriões. Esses sistemas podem ajudar a estimar quais embriões apresentam melhores características para determinados objetivos clínicos.

2. O que é seleção genética de embriões?
A seleção genética de embriões envolve a análise de características genéticas antes da transferência do embrião. Ela pode ser usada em contextos médicos para identificar alterações cromossômicas ou riscos relacionados a determinadas doenças.

3. A inteligência artificial consegue escolher o “melhor” embrião?
Não de forma absoluta. Os algoritmos trabalham com probabilidades e estimativas. Eles podem apoiar decisões médicas, mas não garantem que um embrião resultará em gravidez nem que determinadas características irão se desenvolver.

4. O que são scores de risco poligênico?
São cálculos que combinam diversas variantes genéticas para estimar a predisposição a determinadas condições ou características. Eles indicam probabilidades, e não certezas.

5. É possível prever inteligência, altura ou comportamento de um bebê antes do nascimento?
Existem empresas que oferecem estimativas relacionadas a algumas dessas características, mas fatores como ambiente, educação, alimentação e condições socioeconômicas também influenciam fortemente o desenvolvimento.

6. A seleção genética de embriões é permitida no Brasil?
No Brasil, existem limites éticos para a seleção de embriões. O uso de técnicas genéticas é admitido em situações médicas específicas, mas a escolha de características apenas por preferência dos pais encontra restrições.

7. A inteligência artificial pode substituir médicos na reprodução assistida?
Não. A inteligência artificial pode ajudar na análise de grandes volumes de dados e apoiar decisões, mas a interpretação continua dependendo de profissionais especializados.

8. Quais são os principais riscos éticos dessa tecnologia?
Entre os principais debates estão a criação de um mercado de “bebês perfeitos”, o acesso desigual à tecnologia, a seleção de características não médicas e os limites sobre o que deveria ou não ser escolhido antes do nascimento.

9. Qual é a relação entre mídia e inovação nesse debate?
O tema envolve mídia e inovação porque mostra como novas tecnologias estão transformando não apenas a medicina, mas também o comportamento, o consumo, a publicidade e a forma como a sociedade discute genética e reprodução.

10. Qual é o principal limite da inteligência artificial na fertilização in vitro?
O principal limite é que a tecnologia trabalha com probabilidades. Ela consegue identificar padrões e estimar riscos, mas não consegue prever com certeza como será a saúde, a inteligência, o comportamento ou o desenvolvimento futuro de uma pessoa.