Você freia forte no sinal. Acelera ao sair do posto. Dirige de madrugada mais vezes do que gostaria de admitir. Parece apenas o seu jeito de dirigir. Mas, se o seu carro é conectado, esses hábitos podem virar dados. E, dependendo do modelo de negócio adotado, esses dados podem influenciar até o valor da sua apólice de seguro.

O que muita gente ainda não percebe é que os carros conectados podem funcionar como uma fonte constante de informações. Sistemas de navegação, sensores e serviços digitais conseguem registrar padrões de deslocamento e comportamento ao volante. A questão começa quando essas informações deixam de servir apenas ao funcionamento do veículo e passam a interessar a outras empresas.

É mais um exemplo de como mídia e inovação estão transformando a relação entre tecnologia, empresas e consumidores. O que antes parecia apenas um recurso de conveniência agora também pode influenciar decisões financeiras.

Como os carros conectados podem influenciar o preço do seguro?

Foi exatamente isso que aconteceu com um empresário de Seattle, nos Estados Unidos. Sem acidentes, sem multas e sem qualquer ocorrência registrada, ele recebeu um reajuste de 21% na renovação do seguro. Ao investigar o motivo, descobriu que a empresa LexisNexis possuía um relatório de 258 páginas sobre a forma como ele e sua esposa dirigiam. As informações haviam sido coletadas ao longo de seis meses pelo sistema OnStar, instalado no Chevrolet Bolt da família. Cada frenagem brusca, cada aceleração intensa e cada comportamento ao volante haviam sido registrados.

O caso foi revelado em março de 2024 pelo jornal americano The New York Times, em reportagem da jornalista Kashmir Hill. O empresário, identificado como Kenn Dahl, descobriu que seus dados de direção haviam chegado a uma empresa especializada em fornecer informações utilizadas na avaliação de riscos por seguradoras.

O relatório não significava, por si só, que todos aqueles registros haviam provocado o aumento do seguro. Mas mostrou como informações coletadas pelos carros conectados podiam entrar no processo de avaliação de um motorista, mesmo sem que ele tivesse plena consciência disso.

O caso Chevrolet e o compartilhamento de dados dos motoristas

O caso foi além do reajuste. Em janeiro de 2026, a Federal Trade Commission (FTC), órgão americano de defesa do consumidor e da concorrência, confirmou uma ordem que proíbe a General Motors e a OnStar de compartilhar determinados dados de geolocalização e comportamento dos motoristas com agências de relatórios de consumidores por cinco anos.

A decisão também exige maior transparência e mecanismos para que os consumidores possam acessar, excluir e limitar a coleta de suas informações, com determinadas exceções.

Na Califórnia, a montadora também firmou, em maio de 2026, um acordo de US$ 12,75 milhões relacionado à comercialização de dados de localização e direção. Além disso, passou a responder a ações judiciais em outros estados. Como consequência das denúncias, a empresa encerrou o programa Smart Driver e cancelou contratos de compartilhamento desses dados.

A investigação da FTC mostrou que o problema não estava apenas na coleta das informações, mas na falta de clareza sobre o destino delas. Segundo o órgão, consumidores eram incentivados a utilizar recursos conectados sem receber explicações adequadas sobre como seus dados poderiam ser compartilhados.

Como funciona o seguro de carro baseado no comportamento do motorista?

Enquanto isso, o mercado de seguros baseados no comportamento do motorista cresce em ritmo acelerado. Conhecido como Usage-Based Insurance (UBI), esse modelo movimentou US$ 62,6 bilhões em 2025 e tem projeção de alcançar US$ 77,6 bilhões em 2026. As estimativas são da consultoria Global Market Insights, que aponta crescimento médio de 24,8% ao ano até 2035.

Para quem dirige de forma considerada prudente, os descontos podem ultrapassar 20% em determinados programas, dependendo das regras de cada seguradora, além dos possíveis benefícios relacionados à redução de acidentes.

Na prática, o seguro de carro baseado no comportamento utiliza dados de telemetria, tecnologia capaz de registrar e transmitir informações sobre o uso do veículo. Velocidade, intensidade das frenagens, acelerações, horários e frequência dos deslocamentos podem fazer parte dessa avaliação.

Mas existe um ponto importante: uma frenagem brusca nem sempre significa direção imprudente. Pode ser simplesmente a reação necessária para evitar um acidente. Da mesma forma, dirigir de madrugada não significa, necessariamente, assumir riscos maiores. O desafio está em como esses dados são interpretados e transformados em uma classificação de risco.

Como funciona a coleta de dados de carros conectados no Brasil?

Mas e no Brasil?

Por aqui, o cenário ainda é diferente.

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), Lei nº 13.709/2018, garante ao motorista direitos como saber quais informações estão sendo coletadas, acessar seus dados, conhecer as finalidades do tratamento e solicitar a exclusão em situações previstas pela legislação. O compartilhamento com terceiros também precisa respeitar as bases legais e os princípios de transparência e finalidade.

Já a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) pode aplicar multas de até R$ 50 milhões por infração, respeitados os critérios legais, e incluiu a inteligência artificial e as tecnologias emergentes entre as prioridades de fiscalização para 2026 e 2027.

A própria ANPD também reconhece o direito de solicitar a revisão de decisões tomadas exclusivamente com base no tratamento automatizado de dados pessoais que afetem os interesses do cidadão. É uma discussão importante quando pensamos em algoritmos utilizados para classificar perfis de consumo e risco.

Até agora, não há registro público identificado de uma punição aplicada pela ANPD a uma montadora brasileira especificamente pela venda de dados de comportamento ao volante.

Aplicativos de monitoramento e descontos no seguro de carro

O modelo brasileiro funciona, pelo menos por enquanto, de outra forma. Algumas seguradoras oferecem programas em que o próprio motorista instala um aplicativo, aceita ser monitorado e recebe descontos ou benefícios conforme seu modo de dirigir. É uma escolha que deve ser informada, diferente do que aconteceu nos Estados Unidos, onde muitos consumidores sequer sabiam que essas informações estavam sendo compartilhadas.

Nesses programas de seguro de carro baseado no comportamento, o motorista pode acompanhar sua pontuação, receber orientações sobre direção e entender quais comportamentos influenciam sua avaliação. As condições, os critérios e os benefícios variam conforme a seguradora.

Por isso, antes de aderir, vale observar quais dados serão coletados, por quanto tempo ficarão armazenados e se poderão ser compartilhados com outras empresas. Também é importante verificar se o monitoramento pode resultar apenas em descontos ou se existe a possibilidade de afetar o preço da renovação.

O que a LGPD determina sobre a proteção dos dados dos motoristas?

As seguradoras também precisam seguir as normas aplicáveis ao setor, supervisionado pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), além das exigências da LGPD para o tratamento de dados pessoais.

Isso envolve medidas de segurança para proteger as informações, utilização compatível com as finalidades informadas e respeito aos direitos dos consumidores. Dependendo da operação e dos riscos envolvidos, podem ser necessárias técnicas como criptografia e anonimização.

A ANPD orienta que o cidadão pode solicitar informações sobre o tratamento de seus dados, pedir correções e, nas hipóteses previstas em lei, requerer sua eliminação. Quando a utilização de dados é baseada no consentimento, também existe o direito de revogá-lo.

Na prática, o motorista não precisa ser especialista em tecnologia para exercer esses direitos. Pode começar consultando a política de privacidade do aplicativo, verificando as permissões concedidas e solicitando à empresa informações sobre os dados que possui.

Quais são os riscos dos carros conectados para a privacidade?

Mas a distância entre esses dois modelos talvez seja menor do que parece.

Os carros saem de fábrica cada vez mais conectados. O que hoje depende de um aplicativo instalado voluntariamente amanhã pode vir embarcado no próprio veículo, escondido em um termo de uso que quase ninguém lê.

E não estamos falando apenas de velocidade ou frenagem. Dados de localização podem revelar trajetos frequentes, horários de trabalho, locais visitados e até padrões da rotina familiar. Informações que, isoladamente, parecem pouco relevantes, mas que, quando reunidas, permitem criar um perfil detalhado de comportamento.

A própria FTC destacou, durante a investigação envolvendo a General Motors, que informações precisas de geolocalização podem revelar aspectos sensíveis da vida dos consumidores, incluindo visitas a estabelecimentos de saúde e deslocamentos cotidianos.

A tecnologia dos carros conectados promete seguros mais personalizados e preços potencialmente mais justos. Ao mesmo tempo, amplia o debate sobre privacidade, transparência e controle dos próprios dados.

Essa é uma das discussões mais relevantes quando falamos em mídia e inovação: até que ponto a personalização de serviços pode avançar sem comprometer a privacidade de quem utiliza a tecnologia?

O problema não é necessariamente utilizar tecnologia para avaliar riscos. É fazer isso sem que o consumidor compreenda quais informações estão sendo consideradas e quais consequências elas podem trazer.

Como os algoritmos dos carros conectados podem avaliar seu comportamento ao volante?

A pergunta talvez já não seja apenas quanto você pode economizar no seguro.

É se você conhece o seu jeito de dirigir o suficiente para saber como seria avaliado por um algoritmo.

Uma freada brusca. Uma arrancada mais forte. Um retorno para casa às duas da manhã. Isoladamente, parecem detalhes. Juntos, formam um retrato bastante preciso de quem você é ao volante.

E esse retrato pode não contar toda a história. Um algoritmo consegue identificar padrões, mas nem sempre entende o contexto de cada situação. É por isso que transparência e possibilidade de questionar avaliações automatizadas são tão importantes.

Antes de ativar qualquer serviço de monitoramento, vale fazer três perguntas simples: quais dados meu carro coleta? Quem pode ter acesso a essas informações? E como elas podem ser utilizadas para tomar decisões sobre mim?

E talvez a maior mudança nem seja o carro coletar esses dados.

Seja você quem vai decidir o que pode ser feito com eles antes que alguém decida por você.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. O que são carros conectados e como eles coletam dados dos motoristas?

Carros conectados são veículos equipados com sistemas digitais, sensores e tecnologias capazes de registrar informações sobre o uso do automóvel. Esses recursos podem coletar dados como velocidade, frenagens bruscas, acelerações, localização e horários de deslocamento, dependendo das funcionalidades do veículo.

2. Os carros conectados podem aumentar o preço do seguro?

Sim. Dependendo da seguradora e do modelo de contratação, os dados coletados pelos carros conectados podem ser utilizados para avaliar o comportamento do motorista e influenciar o valor do seguro. Informações como frenagens intensas, velocidade e frequência dos deslocamentos podem fazer parte dessa análise.

3. Como funciona o seguro de carro baseado no comportamento?

O seguro de carro baseado no comportamento, conhecido como Usage-Based Insurance (UBI), utiliza dados de telemetria para analisar os hábitos de direção. Motoristas considerados prudentes podem receber descontos ou benefícios, conforme as regras estabelecidas por cada seguradora.

4. É possível conseguir descontos no seguro de carro por dirigir bem?

Sim. Algumas seguradoras oferecem programas de monitoramento que concedem descontos para motoristas com comportamentos considerados seguros. Dependendo do programa, a economia pode ultrapassar 20% no valor do seguro.

5. Os carros conectados podem compartilhar informações sem o conhecimento do motorista?

Isso pode acontecer quando não existe transparência adequada sobre a coleta e o compartilhamento dos dados. Nos Estados Unidos, investigações envolvendo a General Motors e a OnStar identificaram problemas relacionados ao uso de informações de direção e geolocalização. No Brasil, o tratamento desses dados deve respeitar as exigências da LGPD.

6. O que a LGPD determina sobre os dados coletados pelos carros conectados?

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece direitos relacionados ao acesso, à transparência e à proteção das informações pessoais. O motorista pode solicitar informações sobre os dados coletados, conhecer suas finalidades e, nas situações previstas em lei, pedir sua exclusão.

7. Como saber se meu carro está coletando dados sobre minha direção?

O motorista pode consultar o manual do veículo, verificar os serviços conectados ativados e analisar as políticas de privacidade da montadora. Também é importante conferir as permissões dos aplicativos vinculados ao automóvel e solicitar informações sobre a coleta e o compartilhamento dos dados.

8. Qual é a relação entre mídia e inovação e os carros conectados?

A relação entre mídia e inovação e os carros conectados está no uso de tecnologias digitais e dados para personalizar serviços e influenciar decisões de consumo. No setor automotivo, essas informações podem ser utilizadas para desenvolver novos modelos de seguro, avaliar riscos e oferecer experiências personalizadas. Ao mesmo tempo, aumentam as preocupações com privacidade e transparência.

9. Quais são os principais riscos dos carros conectados para a privacidade?

Os principais riscos envolvem o compartilhamento de informações pessoais sem transparência adequada, o uso de dados de localização para identificar rotinas e a criação de perfis comportamentais. Essas informações podem influenciar decisões comerciais, incluindo avaliações realizadas por seguradoras.

10. Como proteger seus dados ao utilizar carros conectados?

Para proteger suas informações, é importante verificar quais serviços estão ativados no veículo, ler as políticas de privacidade, revisar permissões de aplicativos e conhecer as finalidades da coleta. O motorista também pode exercer os direitos previstos na LGPD e solicitar esclarecimentos sobre o compartilhamento de seus dados.