Na semana passada, o Cade abriu processo administrativo contra o Google. A acusação é direta: a empresa é investigada pelo uso de conteúdo jornalístico produzido por veículos de mídia sem autorização e sem remuneração adequada, e os resumos gerados por inteligência artificial no buscador amplificaram ainda mais esse problema.

A discussão sobre Google e conteúdo jornalístico traz à tona um dos maiores desafios da mídia e inovação: como acompanhar a evolução tecnológica sem comprometer a sustentabilidade de quem produz informação?

Em linguagem simples: o Google lê o que o jornal escreve, monta um resumo com a IA e entrega a resposta ali mesmo, na tela de busca. Você não precisa mais clicar para ir até o site do jornal. Sem clique, sem visita. Sem visita, sem receita.

Os veículos comemoram. A Associação Nacional de Jornais chamou a decisão de urgente. O Google chamou de equívoco.

Mas quero trazer uma provocação: e se o Google estiver, pelo menos em parte, apenas seguindo o que o usuário quer?

Como a inteligência artificial no jornalismo está mudando o consumo de notícias?

Pense em como você consome informação hoje. Reels, TikTok, YouTube. Vídeo curto, narrativa, alguém explicando com a própria voz. O consumo de notícias por vídeo social cresceu de 52% em 2020 para 65% em 2025, segundo o Digital News Report do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, pesquisa realizada com quase 100 mil pessoas em 48 mercados. Não é tendência. É comportamento consolidado.

A inteligência artificial no jornalismo faz parte de uma transformação maior. O público não está apenas mudando a plataforma em que encontra notícias. Está mudando a maneira como busca, recebe e consome informação.

Nos Estados Unidos, pela primeira vez, o acesso a notícias via redes sociais e plataformas de vídeo ultrapassou tanto a televisão quanto os sites de notícias. O mesmo movimento aparece no Brasil, na Índia, na Indonésia.

O Google precisa mudar a forma como apresenta as notícias?

Diante disso, faz sentido cobrar do Google que continue entregando uma lista de links azuis criada nos anos 90? Ou a busca precisava mesmo evoluir para algo mais direto, mais conversacional, mais próximo de como as pessoas já consomem?

O Cade tem razão em questionar se há compensação justa pelo conteúdo usado. Essa é uma discussão legítima e necessária. Afinal, a relação entre Google e conteúdo jornalístico envolve não apenas tecnologia, mas também direitos, remuneração e a continuidade da produção de notícias.

Mas reduzir tudo a “o Google roubou nossas notícias” ignora uma parte fundamental da história: o usuário, o leitor.

Por que as pessoas estão deixando de consumir notícias?

O público foi embora antes da IA chegar.

40% das pessoas nos mercados pesquisados dizem que às vezes ou frequentemente evitam notícias. Entre os motivos estão cansaço, negatividade e a sensação de que não adianta saber. O leitor não foi embora por causa da IA do Google. Ele já estava indo embora. A IA chegou num mercado que já enfrentava dificuldades para manter sua audiência.

E aqui entra uma questão importante quando falamos de mídia e inovação: não basta discutir como a tecnologia distribui as notícias. É preciso entender por que parte do público já não demonstra o mesmo interesse em consumi-las.

A inteligência artificial pode ampliar esse desafio, mas não foi ela que deu início à mudança de comportamento.

Por que o jornalismo tem tanta dificuldade de inovar?

A pergunta mais difícil. E a mais necessária.

Enquanto a indústria musical levou décadas brigando contra o MP3 e o streaming até perceber que precisava mudar o modelo, o mercado jornalístico ainda discute se deve ou não apostar em vídeo.

A transformação digital já alterou profundamente a forma como as pessoas consomem música, entretenimento e informação. E o debate sobre mídia e inovação mostra que o jornalismo também precisa encontrar maneiras de se adaptar a esse cenário.

No Brasil, entre os criadores de notícias mais mencionados pelo público estão um político de direita com canal no YouTube, um comediante e uma influenciadora de lifestyle, todos não jornalistas profissionais.

Qual é o papel dos influenciadores no consumo de notícias?

Esses criadores raramente fazem reportagem original. Na maioria das vezes, comentam e interpretam o trabalho publicado pelos veículos estabelecidos. O jornal apura, o influenciador opina.

Essa diferença é fundamental para entender os desafios da inteligência artificial no jornalismo e das novas plataformas de informação. Produzir uma notícia exige apuração, fontes e verificação. Comentar uma notícia é outra atividade.

O problema é que o conteúdo original nem sempre recebe a mesma atenção ou gera a mesma receita que os comentários e interpretações produzidos a partir dele.

Qual é o futuro do jornalismo na era da inteligência artificial?

É um modelo insustentável. Mas a solução não é processar o Google esperando que a lista de links azuis volte?

O debate sobre Google e conteúdo jornalístico é necessário, especialmente quando envolve o uso de informações produzidas por terceiros e a remuneração dos veículos. Mas a discussão não pode terminar aí.

A inteligência artificial no jornalismo também exige uma reflexão sobre formatos, distribuição, credibilidade e relacionamento com o público.

A solução exige que o jornalismo enfrente uma pergunta que vem adiando: o que o jornalismo oferece que uma IA, ou um influenciador, ou um podcast não consegue entregar? Qual é o seu grande diferencial?

Talvez essa seja uma das questões mais importantes da mídia e inovação hoje. A tecnologia pode resumir uma notícia, acelerar o acesso à informação e facilitar o consumo. Mas a produção de informação original, a investigação e a responsabilidade editorial continuam tendo um papel fundamental.

E sim, estou falando isso no rádio, em uma emissora news. Isso é contraditório? Talvez eu seja suspeita para defender o jornalismo, ou a pessoa certa?

FAQ – Perguntas frequentes sobre Google, inteligência artificial e jornalismo

1. Como a inteligência artificial do Google está impactando o jornalismo?

A inteligência artificial do Google permite apresentar resumos de informações diretamente nos resultados de busca. Isso facilita o acesso às notícias, mas pode reduzir os cliques nos sites jornalísticos, afetando a audiência e a receita dos veículos de comunicação.

2. Por que o Cade abriu um processo contra o Google?

O Cade investiga possíveis práticas anticompetitivas relacionadas ao uso de conteúdo jornalístico pelo Google. A discussão envolve a utilização de notícias produzidas por veículos de comunicação e a possibilidade de remuneração adequada por esse conteúdo.

3. Qual é a relação entre Google e conteúdo jornalístico?

O Google utiliza informações de diferentes sites, incluindo veículos jornalísticos, para apresentar resultados de busca e respostas geradas por inteligência artificial. Essa relação gera debates sobre direitos autorais, distribuição de audiência e remuneração dos produtores de notícias.

4. Como a inteligência artificial no jornalismo está mudando o consumo de notícias?

A inteligência artificial no jornalismo está tornando o acesso à informação mais rápido e direto. Os usuários conseguem encontrar respostas e resumos sem necessariamente acessar os sites de origem, o que transforma a maneira como as notícias são distribuídas e consumidas.

5. Por que as pessoas estão consumindo menos notícias nos veículos tradicionais?

O comportamento do público mudou com o crescimento das redes sociais, dos vídeos curtos e das plataformas digitais. Além disso, fatores como excesso de informações, notícias negativas e cansaço contribuem para o afastamento de parte da audiência dos veículos tradicionais.

6. Qual é a importância da mídia e inovação para o futuro do jornalismo?

A mídia e inovação são fundamentais para adaptar o jornalismo aos novos hábitos de consumo. Investir em formatos digitais, vídeos, podcasts e inteligência artificial pode ajudar os veículos a alcançar novos públicos, fortalecer sua relevância e desenvolver modelos de negócio sustentáveis.

7. A inteligência artificial pode substituir os jornalistas?

A inteligência artificial pode auxiliar na produção, organização e distribuição de informações, mas não substitui integralmente o trabalho jornalístico. A apuração original, a investigação, a verificação dos fatos e a responsabilidade editorial continuam sendo diferenciais importantes dos profissionais de comunicação.

8. Quais são os principais desafios do jornalismo na era da inteligência artificial?

Os principais desafios incluem manter a audiência, garantir a remuneração pelo conteúdo produzido, combater a desinformação e adaptar os formatos de distribuição. O futuro do jornalismo depende de equilibrar inovação tecnológica, sustentabilidade financeira e credibilidade das informações.