Em 2025, o Brasil tinha 272 milhões de smartphones ativos, mais aparelhos do que habitantes. Praticamente nenhum brasileiro com celular deixou de instalar algum app. Banco digital, fintech de crédito, app de saúde, plataforma de bem-estar, serviço de entrega. Dezenas deles. E, junto com cada instalação, foi uma entrega silenciosa: nome, CPF, biometria facial, histórico financeiro, localização, hábitos de sono, receitas médicas.
Na prática, a gente se acostumou a instalar aplicativos quase sem pensar no caminho que essas informações fazem depois. Aceitamos termos de uso, liberamos permissões e seguimos utilizando o serviço.
Mas o que acontece com tudo isso quando o app fecha?
Essa é uma discussão que envolve diretamente proteção de dados pessoais, tecnologia, comportamento digital e também a forma como mídia e inovação passaram a fazer parte da nossa rotina.
O que acontece com os dados quando um aplicativo deixa de existir?
E apps fecham o tempo todo. Um estudo do CB Insights com 431 startups que encerraram operações desde 2023 mostrou que 70% alegam “falta de caixa” como motivo. Na prática, o que isso significa para o usuário é simples: você recebe um e-mail de encerramento, às vezes nem isso, e segue o dia. Mas os seus dados não seguem junto. Mas também, nosso hábito, quando deixamos de usar um app, é apenas deletar do aparelho… mas os dados seguem com aquela empresa.
E aqui existe uma diferença importante: excluir o aplicativo do celular não significa, necessariamente, excluir a conta ou apagar as informações armazenadas pela empresa. São coisas diferentes.
Quando falamos em LGPD e aplicativos, esse é um dos pontos que mais geram confusão para o usuário. Apagar o ícone da tela não significa apagar a relação que aquela empresa ainda mantém com os dados já coletados.
Quando a empresa fecha, os dados continuam existindo
Esta semana, um caso concreto mostrou o que esse cenário significa na vida real. A Naskar, fintech brasileira de gestão de ativos, desapareceu com cerca de R$ 900 milhões de clientes. A empresa abandonou a sede registrada em São Paulo, fechou filiais em Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro e deu uma explicação que merece atenção: disse ter sofrido uma “perda da base de dados”. Ou seja, os dados dos clientes, o dinheiro e a empresa sumiram juntos. A Polícia Civil do Distrito Federal abriu investigação. Mas os dados, esses ninguém sabe onde foram parar.
Casos assim ajudam a mostrar por que a discussão sobre proteção de dados pessoais não termina quando uma empresa encerra as atividades. Dependendo de como essas informações eram armazenadas, compartilhadas ou transferidas, elas podem continuar existindo em servidores, backups ou sistemas de terceiros.
Esse é o problema central que a maioria das pessoas não percebe. Quando pensamos em dados pessoais, imaginamos que eles somem junto com o app. Mas dados não somem. Dados migram.
LGPD e aplicativos: o que a lei diz sobre os dados após o encerramento de uma empresa?
A LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados, existe para regular o tratamento das informações pessoais dos usuários no Brasil. Ela estabelece princípios, responsabilidades e direitos relacionados à coleta, ao armazenamento, ao compartilhamento e à eliminação dessas informações.
Ela determina que os dados sejam eliminados após o término do tratamento. Mas abre quatro exceções: cumprimento de obrigação legal, pesquisa científica, uso exclusivo e anonimizado da própria empresa ou transferência para terceiros, respeitadas as condições da lei.
Essa última exceção é onde mora o problema.
Isso não significa que qualquer empresa possa simplesmente comercializar ou transferir dados de usuários sem regras. A transferência continua sujeita às exigências da LGPD e à finalidade para a qual as informações foram coletadas. Mas, para o usuário comum, acompanhar o caminho desses dados depois que uma empresa muda de dono, encerra atividades ou vende ativos pode ser muito difícil.
É justamente aqui que o debate sobre LGPD e aplicativos deixa de ser um tema apenas jurídico e passa a fazer parte do cotidiano de qualquer pessoa conectada.
Bases de usuários podem virar ativos de empresas
O que acontece na prática é que a base de usuários pode ter valor econômico dentro de uma operação empresarial. Ela pode aparecer junto de outros ativos, como equipamentos, contratos e propriedade intelectual.
Quando um fundo ou outra empresa compra determinados ativos de uma startup, informações relacionadas aos clientes também podem estar envolvidas na operação, desde que a transferência respeite as condições previstas na legislação e as finalidades informadas ao titular dos dados.
E muitas vezes essas condições já estavam descritas nos termos de uso ou na política de privacidade que praticamente ninguém lê quando instala um aplicativo.
Apenas 20% dos brasileiros escolhem aplicativos pagos com garantia de que os dados não serão comercializados com terceiros. A maioria aceita o modelo gratuito sem ler as condições.
É justamente por isso que entender política de privacidade deixou de ser apenas uma preocupação jurídica ou empresarial. É uma questão que afeta qualquer pessoa que tenha um celular.
Dentro do universo de mídia e inovação, essa discussão ganha ainda mais importância porque, quanto mais serviços digitais usamos, maior tende a ser a quantidade de informações pessoais circulando entre empresas, plataformas e sistemas.
Quanto valem os seus dados pessoais?
Quanto valem suas informações?
O mercado global de dados de usuários movimenta valores gigantescos todos os anos. Informações sobre comportamento, consumo, localização, interesses e perfil financeiro têm valor justamente porque ajudam empresas a entender, segmentar e prever o comportamento das pessoas.
Uma base com histórico financeiro, biometria, comportamento de compra e localização de milhares de brasileiros não é simplesmente um conjunto de arquivos armazenados. Dependendo do contexto e da finalidade, ela pode representar um ativo extremamente valioso.
E é exatamente por isso que a proteção de dados pessoais precisa ser tratada com cuidado.
Informações como biometria, dados de saúde e determinadas informações financeiras podem causar prejuízos sérios caso sejam acessadas, vazadas ou utilizadas de maneira inadequada.
Quanto mais tecnologia entra na nossa rotina, mais esse equilíbrio entre mídia e inovação, conveniência e privacidade precisa ser discutido.
Como proteger seus dados em aplicativos que você não usa mais?
Existe algo concreto a se fazer?
Sim. E o primeiro passo é entender que excluir um aplicativo não é a mesma coisa que excluir seus dados.
Peça a remoção dos seus dados antes de excluir o aplicativo
A primeira coisa é deletar agora os apps que você não usa mais, mas, antes, pedir a remoção das informações.
Procure dentro do próprio aplicativo ou no site da empresa opções como “Excluir conta”, “Privacidade”, “Meus dados” ou “Solicitar exclusão de dados”.
A LGPD garante ao titular uma série de direitos relacionados às suas informações pessoais, incluindo acesso, correção e, em determinadas situações, a possibilidade de solicitar a eliminação dos dados tratados.
Por isso, quando falamos em LGPD e aplicativos, não basta apenas conhecer a lei. É importante entender quais direitos podem ser exercidos na prática.
Cada app parado no celular é uma porta aberta. Menos apps ativos é menos exposição, e isso você faz em dois minutos.
Mas vale lembrar: apagar o aplicativo reduz permissões e acessos no aparelho, enquanto pedir a exclusão da conta e dos dados atua sobre as informações que já foram entregues à empresa.
Revise as permissões dos aplicativos no celular
Outra ação prática: abra agora as configurações do seu celular, em “Privacidade” ou “Permissões de apps”.
É provável que você encontre ali apps que nem lembra que instalou, ainda com acesso à sua câmera, localização, microfone e contatos.
Vale revisar principalmente permissões que não fazem sentido para a função daquele aplicativo. Um app que você quase não usa precisa mesmo acessar sua localização o tempo todo? Precisa ter acesso ao microfone? Aos contatos?
Essa revisão periódica é simples, mas diminui a quantidade de informações que aplicativos podem coletar no dia a dia e reforça a proteção de dados pessoais.
Proteção de dados pessoais também depende do usuário
No fim, o ponto principal é este: nossos dados não são apenas informações técnicas guardadas em algum servidor.
Eles contam onde a gente vai, o que compra, quanto gasta, com quem fala, como se comporta e, em alguns casos, até informações íntimas sobre saúde, rotina e vida financeira.
Em um cenário cada vez mais marcado por mídia e inovação, novas plataformas e serviços digitais vão continuar surgindo. Mas a discussão sobre privacidade precisa acompanhar esse avanço.
A proteção de dados pessoais não depende apenas das empresas ou da legislação. Também passa pelas escolhas que fazemos, pelas permissões que liberamos e pela atenção que damos às informações que entregamos.
Mas os dados são individuais, e cada um cuida, ou deve saber, quanto valem suas informações pessoais e íntimas sobre sua vida.
FAQ — Proteção de dados pessoais, LGPD e aplicativos
1. O que acontece com meus dados quando um aplicativo fecha?
Os dados podem continuar armazenados mesmo depois do encerramento do aplicativo. Dependendo da situação, eles podem permanecer em servidores, backups ou ser transferidos para terceiros, desde que sejam respeitadas as regras da LGPD.
2. Excluir um aplicativo apaga meus dados pessoais?
Não. Excluir o aplicativo do celular apenas remove o programa do aparelho. Para apagar os dados, normalmente é necessário solicitar a exclusão da conta e das informações armazenadas pela empresa.
3. O que a LGPD diz sobre aplicativos que encerram as atividades?
A LGPD estabelece regras para coleta, armazenamento, compartilhamento e eliminação de dados pessoais. Mesmo quando uma empresa fecha, o tratamento dessas informações precisa continuar respeitando a legislação.
4. Uma empresa pode transferir meus dados para outra empresa?
Em algumas situações, sim. A transferência pode ocorrer desde que esteja de acordo com a LGPD, com a finalidade informada ao usuário e com as condições previstas na legislação.
5. Como posso pedir a exclusão dos meus dados de um aplicativo?
Procure no aplicativo ou no site da empresa opções como “Excluir conta”, “Privacidade”, “Meus dados” ou “Solicitar exclusão de dados”. Também é possível entrar em contato com o canal de atendimento responsável pela privacidade.
6. Por que a proteção de dados pessoais é importante?
Porque dados como localização, biometria, histórico financeiro, informações de saúde e hábitos de consumo podem revelar aspectos muito pessoais da vida de alguém e causar prejuízos se forem usados de forma inadequada.
7. Como revisar as permissões dos aplicativos no celular?
Acesse as configurações do aparelho e procure por “Privacidade” ou “Permissões de apps”. Lá é possível verificar quais aplicativos têm acesso à câmera, microfone, localização, contatos e outras informações.
8. O que mídia e inovação têm a ver com proteção de dados pessoais?
Quanto mais serviços digitais, aplicativos e novas tecnologias fazem parte da rotina, maior é o volume de informações pessoais coletadas. Por isso, mídia e inovação também precisam ser acompanhadas por discussões sobre privacidade, segurança e uso responsável dos dados.

